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Quem tem medo de startups?

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Jordan Peterson, doutor em psicologia e professor na Universidade de Toronto, separa as experiências humanas em duas ações: o encontro voluntário com o território inexplorado e a permanência em territórios conhecidos.

O território explorado representa a ordem e a segurança, criando estruturas hierárquicas bem definidas e sociedades funcionais.

Porém, o excesso de ordem é algo terrivelmente ruim, podendo ser representado por um governo autoritário ou uma empresa estagnada em um modelo de negócio retrógrado.

O território inexplorado representa o caos, o incerto e as oportunidades frente aos desafios.

O caos é assustador e promissor, ao mesmo tempo.

As oportunidades surgem do desconhecido, do território inexplorado.

Porém, permanecer em estado de caos é angustiante e perigoso.

Para Peterson, o estado ideal é aquele entre o caos e a ordem.

Utilizando o caos, buscamos a evolução ao repensar estruturas pré-existentes. Depois, ordenamos as inovações, criando padrões e rotinas, gerando estabilidade. 

O equilíbrio é necessário para inovar, combatendo a estagnação, mas sem destruir completamente as estruturas fundamentais.

Eric Ries, pai do método enxuto, amado pelo Vale do Silício, diz que as startups são “instituições humanas projetadas para criar novos produtos e serviços sob condições de extrema incerteza”

Ou seja, as startups habitam o território inexplorado. Elas precisam validar seu modelo de negócio para encontrar como sobreviver, quiçá lucrar.

E, para isso, procuram investidores que aceitam o risco da empresa com as condições de apoiarem, no início, uma ideia que pode gerar bilhões de reais, se tudo der certo, ou naufragar inapelavelmente.

Bem, as imobiliárias são empresas “normais” em sua grande maioria. Elas seguem um modelo formatado nos anos 2000.

Hoje, a maior diferença é que os leads entram por canais digitais, não mais por jornais ou revistas. Porém, a estrutura operacional é a mesma.

O mercado imobiliário como um todo não avançou significativamente em termos de gestão.

Estamos estagnados no território explorado, algo completamente diferente das startups que aceitam a desordem de forma voluntária.

Elas adentram nos problemas do imobiliário para transformar o caos em ordem, transitando no território inexplorado para torná-lo conhecido.

Fundadores de startups enxergam um problema, modelam uma solução e partem para o campo de batalha. Algo que as empresas normais não conseguiriam fazer, seja por barreiras culturais ou por causa do perfil dos gestores.

São justamente as startups de alto risco que têm o potencial de mudar todo um mercado. Aconteceu com os táxis, aconteceu com os hotéis, está acontecendo com o mercado imobiliário.

O BTG Pactual (um dos maiores banco de investimentos do Brasil) comprou 20% da CredPago.

Colocando no papel, a CredPago é a maior imobiliária-sem-ser-imobiliária do Brasil.

A startup recebe cerca de 8% mensal por cada contrato de locação assinado nesta modalidade de garantia. São 44 mil contratos, segundo a própria CredPago.

Em um mercado em que imobiliárias cobram de 6% a 10% de taxa de administração, a CredPago fatura mais que as próprias imobiliárias.

Com um faturamento bruto de uma imobiliária que aluga 44 mil imóveis (descontando a taxa de intermediação do primeiro aluguel), a CredPago é a maior “imobiliária” do Brasil, no mesmo patamar da QuintoAndar. 

Apenas essa conta de padaria já seria o suficiente para convencer qualquer investidor.

Além disso, a operação é exponencial. Os custos fixos com estrutura tendem a zero.

Não há necessidade de filiais. Tudo está na nuvem, na Internet.

E, caso a empresa dobre de tamanho em receitas, dificilmente seu custo será maior que 30% da operação atual.

Basta um clique e a plataforma pode ser utilizada para fechar outros 44 mil contratos.

Em minha humilde opinião, a CredPago é um case mais interessante que a própria QuintoAndar, pois o esforço de mídia dela é nulo se comparado à badalada 5A.

E o que a CredPago fez? Encontrou uma oportunidade em um mercado estagnado. Seus fundadores perceberam um gargalo no sistema de fiadores e decidiram atacar a dor.

Hoje, a plataforma faz bastante sentido, mas foi um negócio arriscado.

E se as imobiliárias não aceitassem? E se o cliente final não entendesse a proposta de valor? 

Agora, o modelo de negócio validado está se tornando território explorado com a criação de novos produtos concorrentes por parte das seguradoras, que entenderam as necessidades dos clientes e estão se movimentando para trazer oportunidades ainda melhores.

Perceba como a entrada de apenas uma startup melhorou e evoluiu a operação das garantias locatícias em menos de 2 anos.

As startups do imobiliário estão aqui para somar, para nos tirar da zona de conforto. Essas empresas novas e de alto risco devem ser observadas como uma oportunidade de parceria, de aceleração.

Nas corridas de rua, esporte que eu pratico, a mesma lógica se aplica quando os organizadores de maratonas contratam os chamados “coelhos” para acelerar o ritmo do pelotão e provocar a superação de recordes.

Coelhos são corredores velocistas contratados para arrancar à frente e liderar a maratona até a sua metade, gerando temor e desafiando os favoritos.

Ou os fundistas aceleram o passo e se mantêm próximos do coelho, ou o coelho pode vencer. Muito raramente, um coelho vence uma maratona, mas é conveniente não se acomodar.

Voltando ao imobiliário, vejo que as startups são o “coelho” capaz de levar o mercado adiante.

Há uma oportunidade aberta para criarmos parcerias com startups que podem mudar o nosso mercado em tempo recorde.

Precisamos assumir o risco de transformar o caos em ordem, para encontrar novos territórios inexplorados ao lado de parceiros. 

Ou podemos cruzar os braços e definhar por estagnação.


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